domingo, 9 de junho de 2019

*matéria 2


Santinhos sexuais

A prostituição e o marketing informal, urbano, de calçada




O dicionário explica que o substantivo santinho tem, na sua essência, dois significados. (1) Pequena imagem ou gravura com teor religioso. (2) Folheto de propaganda eleitoral com o nome, a foto e o número do candidato. Nenhuma dúvida sobre essas acepções. Mas acontece que a língua portuguesa é afeita à elasticidade, ela gosta de criar novas aberturas para suas palavras. É por isso que os santinhos, além de religiosos e políticos, são também sexuais há muitos anos.  

Já que não fazem parte do público-alvo, pedestres mulheres talvez não percebam o fenômeno que briga por espaço nas calçadas. Em Caxias do Sul, assim como em qualquer outra cidade populosa do Brasil, se você for homem e estiver caminhando sozinho pelo centro, é alta a chance de que um santinho sexual chegue discretamente às suas mãos. Em preto e branco ou colorido, com slogans, recursos gráficos, ambientações. E às vezes até indicando as bandeiras de cartão de crédito que são aceitas.

De novo: essa plataforma não surgiu agora. É fato que os interiores dos orelhões cumprem há décadas a função de abrigar folhetos com propostas eróticas. O problema é que diminuiu o número de pessoas que utilizam telefones públicos. Eis então a importância, segundo o ponto de vista das agências de sexo pago, da distribuição de santinhos nas calçadas – essa tática de mão-em-mão tem um alcance imediato e sequencial.

 

metodologias, despersonalização

 

No centro de Caxias do Sul, várias agências de prostituição (no mínimo 7) utilizam o marketing dos santinhos. E cada uma adota metodologias próprias de panfletagem, conforme sua estrutura e seu organograma. Uma das distinções tem a ver com a pessoa encarregada de fazer a distribuição do material. Em certas agências, as próprias profissionais do sexo se alternam na entrega dos santinhos, ao passo que em outras é uma pessoa terceirizada quem dissemina os anúncios impressos.

Além da logística, há também diferenças em relação ao design, à linguagem empregada, ao tipo de fotografia que os santinhos utilizam. Alguns são discretos e arejados, com escolhas estéticas que se aproximam bastante do clean. Em contrapartida, outros utilizam formas composicionais que andam lado a lado com a explicitação, apostando suas fichas no choque visual, na excentricidade, no despertamento dos instintos.

Várias diferenças estilísticas, mas há pelo menos uma característica que unifica todos os santinhos sexuais. Numa época de celebradas expressões como “agregar valor à marca” e “call to action”, os santinhos, de modo inevitável, acabam despersonalizando as mulheres que são ali anunciadas. Não existem rostos (quando existem, estão desfocados) nem identidades reais. O que há são objetificações, estereótipos, alcunhas apelativas do tipo a dominadora, a novinha de 18.

agência 1 (vamos chamá-la assim)

 

São 17h10, segunda-feira. A entregadora de santinhos da agência 1 está na esquina da Av. Júlio com a Garibaldi. É uma funcionária terceirizada, diz que nunca fez parte da equipe de mulheres da agência. Embora sua estatura pequena lembre a de uma pré-adolescente, os traços do rosto batem com os trinta anos que ela afirma ter – talvez seja até mais velha. Explica que não tem o hábito de conversar em serviço. Prefere resguardar o nome, é tímida.

E não para de se movimentar lateralmente na calçada, sem relaxar na tarefa de distribuir os anúncios. “Tem cinco meninas na casa”, diz e aponta o dedo, “é ali na outra quadra”. O santinho que ela entrega (o mais discreto entre os coletados) avisa que há atendimentos aos domingos e especifica os nomes: Lara, Larissa, Bruna, Taís, Bia. Quando questionada sobre as faixas etárias e classes sociais dos homens a quem ela entrega os folhetos, a resposta que sai é generalizada. A única coisa que ela diz com segurança é que distribui muitos por dia.

 

agências 2 e 3

 

17h18, próximo ao Shopping Prataviera. A mulher que entrega os santinhos da agência 2 não fica o dia inteiro na calçada – ela diz que também faz programa, de acordo com o revezamento interno. Conta que se chama Bianca e que tem 22 anos. Mostra-se receptiva ao diálogo: olha nos olhos, sustenta a voz, dá respostas completas. “Hoje tem seis meninas no apartamento. Chega a subir trinta e cinco homens por dia, às vezes até mais, depende da época do mês. A gente evita entregar os anúncios só pra bem adolescente e pra homem muito muito velho, o resto vai.”

17h23. O homem que distribui os santinhos da agência 3 está a cinco passos de Bianca. Ao que parece, não há clima de concorrência entre as agências. “Tem clientela pra todos, né”, ele diz. E confessa que as mulheres do anúncio não são as mulheres da casa. “A gente usa umas fotos que chamam mais atenção, é normal fazer isso”, justifica. Ao contrário do que muita gente poderia supor, os homens jovens (entre 18 e 25 anos) representam os clientes mais frequentes para a agência 3. “É quem mais vem.”

 

sororidade, natureza humana

 

Sempre os franceses: além do decisivo maio de 68, a França teve ainda o junho de 75. Cerca de 150 prostitutas ocuparam uma das igrejas de Lyon, a Saint-Nizier. “Uma balbúrdia” – quem sabe também lá alguém tenha usado a maldosa expressão. A verdade é que essas mulheres, armadas com orgulho e autorrespeito, resolveram se aglomerar para exigir direitos referentes à sua profissão. Um bater-de-pés orquestrado, uma amostra importante da força da sororidade.

Mas a prostituição ainda é tabu. Talvez para sempre. Enquanto algumas pessoas a interpretam como ofensa ao corpo e à dignidade, outras a reconhecem como parte constitutiva do livre-arbítrio, da liberdade individual. O curioso é que, nesse meio-tempo de embate de conceitos, os santinhos sexuais parecem ser realidades cada vez mais presentes – que, a seu modo, contam sim uma história significativa (e ilustrada) sobre certas facetas da natureza humana. Uma história publicada, impressa em papel offset.

 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

*matéria 1


Fora das quatro paredes

    O perfil de Eduardo, um dos cerca de 450

moradores de rua de Caxias do Sul



Embora possua título eleitoral, Eduardo de Almeida Cardoso, 25, não votou nas últimas eleições. “Acho chato esse negócio”, diz. E não sabe de cabeça o nome do prefeito de Caxias, tampouco que atualmente Daniel Guerra está governando sem um vice – fato de difícil entendimento até para as pessoas que têm endereço fixo. De política, Eduardo compreende apenas que Bolsonaro é o novo presidente. “Escuto o nome dele toda hora na rua, é famoso que nem ator de novela.” Uma novela com mocinhos e vilões ainda muito misturados.

Se a atualização política de Eduardo é limitada, se a memória se atrapalha ao nomear o prefeito caxiense, o mesmo não vale para o senso de sobrevivência que ele edificou para si com autodidatismo. Faça mormaço ou faça frio, seja dia útil ou fim de semana, a vida dele acontece sempre a céu aberto, caminhando pelos bairros São Pelegrino, Marechal Floriano e Centro. Uma rotina desprovida de qualquer privacidade, espécie de Big Brother sem câmeras e sem glamour midiático. No BBB anônimo de Eduardo, não existe prêmio de um milhão de reais para o vencedor.  

 

o destino escorregadio e diabético

 

“Nasci em São Francisco de Paula e vim pra Caxias com dois anos. Tenho quatro irmãs e cinco irmãos.” Todos, exceto ele, moram fora das ruas, o que infla Eduardo de orgulho. “Minha carteira de identidade tá na casa de uma das minhas irmãs”, tal como a carteira de motorista, que agora em 2019 está vencida. “Já tive carro uma vez, um Astra”, diz e olha para cima, talvez acionando lembranças do breve período em que ele fez parte da sociedade que consome. Hoje, para Eduardo, consumo se transformou em com sumo aperto.

Na véspera da adolescência, a pregada de peça dupla do destino. O pai, Darci Antônio Cardoso, escorregou em cima do telhado e caiu de ponta-cabeça no vão entre a casa e o muro, sem chance de sobreviver. Pouco depois, a diabete venceu a resistência abatida da mãe, Venira de Almeida. Eduardo conta isso com uma voz sedativa, como quem se preocupa em tranquilizar o ouvinte. “A gente se virou com a ajuda de alguns tios.” Explica também que estudou até a sexta série: quatro repetições seguidas fizeram com que ele desistisse. Essa jornada estudantil aconteceu nas escolas Apolinário, Aquilino Zatti e Alfredo Belizário Peteffi. O sonho futuro dele tinha a ver com advocacia e escritório, só que o futuro precisou se arranjar sem sonho.

            

a vida social/amorosa

 

Eduardo não perde tempo com grupos de WhatsApp, assim como nunca se sente obrigado a dar likes no Instagram nem a postar stories exibindo os pratos de R$ 1 que come no Restaurante Popular – para isso seria preciso ter um celular multimídia. Mas ele já foi ativo no Facebook por um tempo, até perder a vontade. “Faz uns cinco anos que eu não entro numa lan house.”

Ainda que sejam invisíveis para muitas pessoas, os moradores de rua enxergam uns aos outros. E gostam de namorar. Eduardo se relaciona com mulheres que, como ele, estão em situação de precariedade social. O desafio é achar um canto privativo que ofereça certa liberdade de movimento. “Nos albergues a gente não pode, tem que dar um jeito aqui fora”, diz e pisca. Eduardo conta que já viu relações homoafetivas entre os sem-teto. E declara respeitar as escolhas alheias – opinião confirmatória de que, em relação à sexualidade, quem vive à margem desenvolve menos o cacoete de fazer julgamentos hostis. 

Às vezes, quando resolve tirar uma folga da tarefa de pedir moedas nos semáforos, Eduardo caminha até a praça Dante e observa os pombos, “é bom pra desvirtuar um pouco a mente”. Segundo ele, Caxias do Sul é uma cidade boa. “Melhor que Porto Alegre. Morei lá dois anos com um primo, no morro da Tuca.” Então retomou sua rotina de mendicância na Serra. A seu modo e de uma forma até meio literária, Eduardo encontrou aqui a Terra da Cocanha, descrita por José Clemente Pozenato, dove chi manco lavora piú guadagna.

 

contradições, bruxarias, filhos e facadas

              

Talvez a maior contradição de Eduardo seja o fato de que, apesar de frequentar diariamente as áreas de reciclagem ao lado do estádio da SER Caxias, ele torce para o Juventude. “Meu pai era do Ju e eu peguei dele, a gente ia ver jogo quando eu era criança.” Hoje, não vai mais ao Alfredo Jaconi, mas dentro do possível acompanha os resultados e se permite até mesmo caçoar o rival Caxias.

Se a vida realmente imitasse a arte, Eduardo teria uma varinha de condão cheia de bruxarias – Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é seu filme predileto, visto muitas vezes graças ao DVD de uma das sobrinhas. Além de tio, Eduardo também é pai, tem um filho de sete anos. “O nome dele é Wiliam e ele mora lá no bairro Vila Lobos.” De acordo com a contagem paterna, faz três ou quatro anos que eles não se encontram, por motivos que não são revelados. Provavelmente seja o ponto mais sensível de Eduardo, já que evita dar seguimento ao assunto. Sem fingir uma polidez forçada, faz um comentário lateral e muda a direção das palavras.

“Sou espírita, o espiritismo me salvou da morte uma vez”, confessa, embora não frequente centros espíritas nem pregue a doutrina. Ele sustenta com firmeza que essa fé o salvou em pelo menos uma ocasião: Eduardo levou duas facadas de raspão na cabeça, quando foi confundido com um assaltante. E precisou levar sete pontos. “Mas depois a confusão foi desfeita, eu nunca roubei ninguém”, diz e aguarda com os olhos algum gesto de cumplicidade, o que revela um lado mais frágil, carente de legitimação.

 

 

o horizonte lá de fora e o horizonte caxiense

 

Observando Eduardo com atenção, sua aparência atual lembra a de Alexander Supertramp, o personagem real do livro Na Natureza Selvagem, cujo autor é o jornalista Jon Krakauer – livro que virou filme. Vale lembrar que o jovem Supertramp, instigado pelos escritos de Jack London (lendário escritor/etnógrafo norte-americano), largou voluntariamente as práticas da sociedade para virar mais um dos hobos, como eram conhecidos os que vagueavam sem destino e sem dólares no bolso.

Corta para Caxias do Sul e temos aqui o nosso próprio Supertramp contemporâneo, alheio aos nomes de quem é quem lá dentro da prefeitura, alheio às decisões burocráticas e por vezes esfíngicas da Pérola das Colônias. Na cidade dos veículos ostentosos, das sacadas fechadas e do endeusamento metalmecânico, Eduardo se vira com papelão e retalhos de uma lona quase sem cor. 


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Trilhos

*crônica publicada na Folha de Caxias: 30/11/2012. 

O ano do nascimento dele eu desconheço. O que sei é o local: o menino negro nasceu na acanhada cidade chamada Haiti, no estado do Missouri, EUA. Mais tarde, em 1955, ele acomodou toda sua vida dentro de uma mala magra e rumou para Chicago. Arrumou lugar nos fundos de um clube noturno, no West Side. Sabia se infiltrar. E nas incursões dentro do clube o rapaz negro via no palco músicos graúdos, gente como Muddy Waters e Howling Wolf. Percebeu que aqueles caras realmente se divertiam enquanto tiravam blues dos seus instrumentos. Foi o estopim.
Casou-se cedo. E ganhou um cunhado músico, que o influenciou aos poucos. Em Chicago, o rapaz negro levava a banda do cunhado para cima e para baixo. Ajudava a esquematizar o aparato todo e depois (ah, depois) escutava blues raiz. Mas quando voltava para casa, o rapaz negro se frustrava pelo fato de não saber tocar fluentemente nenhum instrumento. Então começou a mergulhar no autodidatismo, na experimentação. Um dos seus primos (Ralph Ramey) ficou sabendo e disse que eles deveriam constituir a própria banda. “That’s a good idea, man.” 
O rapaz negro convidou seu irmão, que enganava na bateria, para participar do projeto. Após quatro meses improvisados, já faziam barulho. Certa noite foram tocar num clube conceituado, onde apresentaram duas músicas. O dono do lugar lhes ofereceu emprego. Com o emprego, vieram também convites para viajar – mas a mulher de Ralph Ramey objetou. O rapaz negro e seu irmão abandonaram o projeto e criaram nova banda, que também durou pouco.
Lá se foi o tempo e outras bandas foram formadas, pelo menos mais três. Daí o rapaz negro recebeu uma convocação para tocar seu instrumento (o contrabaixo) com Otis Rush, considerado o 53º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista Rolling Stone. O resto é história. Uma história com infinitos quilômetros-canções-melancolias-blues.
O ano é 2012. Eu olho para o alto e distingo a lua, que me parece um abajur insuperável para o blues. Num dos palcos laterais do Mississippi Delta Blues Festival de Caxias do Sul (palco localizado na porta da antiga estação férrea), contemplo a voz e o contrabaixo do rapaz negro, Bob Stroger. Estou sentado nos trilhos do trem, a dois metros do senhor de terno-gravata-história, e penso em todos os trilhos que Bob Stroger já deve ter percorrido nas planícies deste mundo. Penso nos meus próprios trilhos. 


sábado, 1 de novembro de 2014

De um jeito ou de outro

*crônica publicada na Folha de Caxias: 22/06/2012

Você tem que assoprar com uma espécie de vigor suave, o que não é nada simples de alcançar. Mas o desafio mesmo é não desafinar quando, ali na partitura, aparece uma oitava acima: tarefa destinada ao meu dedão esquerdo (sua única ocupação no ritual todo, aliás). Talvez você não saiba: ao contrário do esquerdo, o dedão direito é o único dedo que não participa do rito rítmico. Ele é o dedo burocrático, tem apenas a função operária de sustentar o saxofone.
Meu ponto fraco está no mindinho esquerdo, já que são quatro os botões que ele deve supervisionar (o indicador direito também tem quatro chaves para pressionar, mas acontece que os indicadores são dedos mais independentes, e os meus são bem desembaraçados). Diferente do esquerdo, meu mindinho direito, astuto, adaptou-se sem dificuldades: são duas as chaves sob sua responsabilidade. A adversidade é quando ele pressiona a primeira dessas chaves. Daí eu preciso sempre fortalecer a intensidade do sopro: mais potência. Assopramento viripotente.
A palma da mão esquerda tem função tremendamente ativa. Ela pressiona a chave mais esquisita do sax (chave parecida com um daqueles velhos abridores de garrafa). Mas eu preciso mesmo é falar dos lábios. Na parte inferior da boquilha do sax há uma palheta. A minha é uma Vandoren-Paris-2, para aprendizes. A força com a qual você pressiona a palheta entre os lábios faz toda a diferença. Não se esqueça da língua. A língua trabalha na ponta da palheta, dando ali minúsculos e cadenciados encontrões (nessa parte de lábios e língua eu me viro com certa desenvoltura, pois quanto mais beijocas românticas você praticar, mais ritmo e manha você desenvolverá).
Escrevo estas linhas na companhia de John Coltrane. Ele está inquieto, tirando do sax uma poesia intensa e enigmática, com amplitudes e levezas, acelerações e brecadas. O sax do Coltrane não é igual ao meu. O dele é tenor, o meu é alto. Há ainda o barítono, o soprano, o baixo e o contrabaixo, se não me falha a memória instrumental.
 Simbólico e temporário. O saxofone foi uma experiência de apertados seis meses na minha vida, cujos frutos foram apenas dez músicas, entre as quais Tears in Heaven, de Eric Clapton, que estou prestes a assoprar, já que preciso me expressar um pouco, de um jeito ou de outro. Ali fora chove.