sábado, 4 de julho de 2020
*matéria 10
terça-feira, 31 de março de 2020
*matéria 9
Casal morador de rua recebe abrigo nos
Pavilhões da Festa da Uva, protagonizando metáfora viva a livro de García
Márquez
Mayron
e Bianca não leram O Amor nos Tempos do Cólera, de García Márquez. Mas são os
protagonistas de O Amor nos Tempos do Corona. “Parece mesmo uma história de
livro”, diz Mayron Soares dos Santos, 27, “porque esse vírus tirou a gente da
rua”. Tanto ele quanto ela percebem a demão de ironia, o inusitado do contexto:
um vírus oferecendo a uma parcela de moradores de rua a possibilidade temporária
de um teto fixo, 24h, sete dias por semana.
Semana
em que Bianca Pereira Macedo, 22, sente-se muito feliz ao lado de Mayron, o que
não deixa de combinar com a página 97 do livro de García Márquez: “O amor
correspondido lhe havia dado uma segurança e uma força que não conhecera antes”.
Segurança e força que fizeram com que Bianca, na saúde e na doença, no fechado
e no aberto, escolhesse Mayron para ser o pai de seu filho.
o pequeno, o aviso
O
pequeno Miguel Djiovanny tem apenas três meses. “É nome italiano”, diz Bianca. Quis
o vento do calendário que Miguel nascesse em 25 de dezembro, feito um menino Jesus
sem endereço próprio para nascer — porém um menino Jesus que, diferente do
original, não conseguirá multiplicar o pão tão facilmente assim. E que hoje
seria julgado se bebesse o vinho sagrado, já que a maior parte dos cidadãos
(com teto) defende que os sem-teto não deveriam consumir álcool.
Miguel
Djiovanny não está com os pais no refúgio provisório dos Pavilhões da Festa da
Uva. “O juiz não deu permissão”, diz Mayron. Pai e mãe estão cientes de que é
melhor assim, é mais seguro esperar um pouco até pegar o filho de volta.
Durante este recolhimento quase mundial, o pequeno foi acolhido por um abrigo
aqui de Caxias do Sul. “Eu prefiro que tu não bote o nome do abrigo”, Bianca
avisa, serena, uma voz firme que dispensa de Mayron a tarefa de reforçar o
aviso.
a desintoxicação,
a tatuagem
Bianca
não oculta que já passou um tempo presa. Naquele outro tipo de quarentena,
quando era possível, ela tatuava outras detentas, arte que captou do pai. “Eu
era adolescente e treinava num pedaço de couro, criando um monte de desenho.”
Pelas contas dela, fez 63 tatuagens (sem cobrar) enquanto esteve detida, usando
caneta, agulha e “aquela maquininha”. O curioso é que, embora tatuadora, Bianca
jamais foi tatuada.
a faxina, o
alheamento
Cerca de 100 moradores
de rua estão hoje nos Pavilhões da Festa da Uva, divididos em alas subjetivas e
alegres. Seus quadrados respeitam um intervalo conveniente entre um e outro, deixando
que o ar circule. No beco 01, batizado de “Os favelas”, Bianca faz um sinal decidido
para Mayron, um sinal de que, antes da foto no quarto deles, ela quer fazer uma
faxina relâmpago no ambiente, quer alinhar o criado-mudo improvisado e esticar
o lençol branco-florido.
A vontade dela é
satisfeita e, nesse meio-tempo, vem à tona que alguns dos sem-teto ao redor
estão alheios ao novo vírus, alheios à inesperada rixa entre saúde e economia. “Tem
muitos aqui que se acomodaram e não querem nem saber”, diz Mayron, meio
envergonhado, sem desconfiar de que no Brasil inteiro vários moradores de condomínio
também se acomodaram e não querem nem saber.
o pescador de
ilusões, a plateia
Na mesa de lanches, às
10h28, Mayron interrompe o sanduíche para cantar e tocar “Pescador de ilusões”,
da banda O Rappa. Sua voz se intensifica conforme exige a letra, conforme exigem também seus próprios sentimentos, sua própria exigência de expressão — que se
desenvolveu via autodidatismo, sem aulas particulares, sem paredes limitadoras e
tetos de gesso que sempre acabam encaixotando o som.
Com timidez, sozinha na plateia da mesa, Bianca mexe os lábios e acompanha a música do namorado. A atenção só para Mayron, os olhos dela como que projetando o futuro pós-corona ao lado do pescador de ilusões e do filho deles. Os braços de Bianca apoiados na mesa dos Pavilhões da Festa da Uva, março de 2020, o mês em que os sem-teto de todo o Brasil ganharam um teto pelos motivos errados.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
*conto 1
Aquele risco violeta, meio roxo
a.
Em maio agora faz três anos que
estamos aqui no Brasil, mas a sensação em nós é de mais tempo. Nossa cidade lá
no Senegal se chama Joal-Fadiout. O fato curioso é que esse tracinho no meio de
Joal-Fadiout é uma ponte de verdade. Joal fica na extensão do continente,
enquanto Fadiout forma uma ilha cheia de telhados beges e cinzas. Mais ou menos
45 mil habitantes. O primeiro presidente do Senegal nasceu lá.
Três anos no Brasil e ainda não
conseguimos aprender bem o português. Até porque Malick, Ousmane, Faraji e eu temos
o hábito de conversar só com outros imigrantes senegaleses, como se continuássemos
vivendo em Joal-Fadiout. É por isso que as palavras que estão aqui foram
originalmente escritas em francês — seria
difícil escrevermos com naturalidade na língua do Brasil. O que fizemos foi procurar
uma escola de idiomas e dizer que precisávamos de um tradutor. Escola Instituto
Roche, na Ramiro Barcelos. Explicamos a ideia do nosso texto, o convite da Ana
Luiza, a inesperada chance de participarmos de uma coletânea de contos.
b.
Moramos
num apartamento de dois quartos na zona norte de Porto Alegre, bairro Passo
D'Areia. O destino inicial era Caxias do Sul, mas acabamos trocando
na última hora — essa passagem
sozinha daria um livro. No geral, as pessoas olham para nós e acham
que a única coisa que sabemos fazer é comercializar itens na rua. Lenços.
Malhas. Panos de prato. E temos certeza que algumas pensam que somos
analfabetos, já que gaguejamos no português.
Lá
no Senegal existem vários dialetos. O principal é o wolof, que prevalece na
televisão e no rádio, dominando inclusive a capital Dakar. A sonoridade do
wolof é bonita. Jërëjëf significa “obrigado”. Taalata é “terça-feira”. As línguas árabe e francesa
também fazem parte do nosso cotidiano: tanto na oralidade quanto na
escrita. Somos alfabetizados.
c.
Malick
é o único de nós quatro que já morou na Europa. Itália. Primeiro em Nápoles (oito
meses) e depois Verona (um ano). Como não podia trabalhar legalmente no setor
de telefonia, que é sua especialidade desde sempre, começou a vender souvenir
ao redor de pontos turísticos. Malick ficou bastante conhecido na cidade de
Verona — pelo menos entre a comunidade senegalesa que
vive lá. Isso porque em certo momento Malick teve a cara de pau negra de querer
algo diferente. É famosa a história de quando ele (aos 27 anos) quis fazer um
teste no time de futebol chamado Hellas Verona. Imagina só, um time
profissional que disputava a primeira divisão do campeonato italiano. Que
sonho. Claro que os italianos não deixaram Malick entrar em nenhum treino.
Mas
ele entrou sim para a lista de fofocas senegalesas em Verona. A notícia se
espalhou entre os nossos como pó na ventania. Malick, o jogador. Malick, o
injustiçado. Existe até uma foto de celular do instante exato em que ele, após
ter sido barrado na secretaria do estádio, deu as costas e voltou cabisbaixo ao
realismo da vida — não sabemos em
qual celular ficou armazenada essa foto. A verdade é que o futebol ocupa um
lugar respeitado e até meio místico dentro de nós quatro.
d.
Daqui
um mês e pouco vai começar a Copa do Mundo 2018 na Rússia. A seleção do Senegal
está dentro (Malick queria muito o Senegal no grupo da Itália, só que a Itália
não conseguiu vaga na Copa, que pena). Fazendo uma conta nos dedos, é bem
provável que, no dia em que este texto estiver enfim traduzido e for publicado,
já saberemos qual seleção conquistou o título —
ou talvez por sorte a publicação saia ainda durante os jogos, quando as chances
de todos os países continuarem vivas. No fundo, não temos a esperança tola de
vencer a Copa. Esperança é um sentimento que hoje em dia nutrimos só em relação
aos assuntos pessoais, em relação a nossa própria caminhada. Embora nós quatro torçamos
bastante pela seleção do Senegal, torcemos mais forte por nós mesmos, já que
temos nossas Copas do Mundo particulares aqui no Brasil.
Mas
é óbvio que seria lindo se nosso país levantasse o troféu máximo do futebol. A
primeira seleção africana campeã do mundo, que rótulo para a sociedade
senegalesa. O intrigante é que não conseguimos imaginar quais seriam as
consequências imediatas dessa conquista. Será que o Senegal começaria a receber
atenções e investimento estrangeiro, uma multinacional, um escritório da ONU?
Será que a República do Senegal passaria a ser estudada nas salas de aula dos
Estados Unidos?
e.
Malick, Ousmane, Faraji e eu não somos irmãos nem primos. Crescemos próximos
uns dos outros em Joal-Fadiout. Tão próximos que às vezes dava
para escutar em uníssono o que acontecia nas quatro moradias —
os sons da vida africana, para o bem e para o mal. O que temos em comum é que
os pais de cada um de nós se casaram com mais de uma mulher. Traço étnico da
nossa terra. Por exemplo, o pai de Ousmane tem três esposas, todas vivendo na
mesma casa de telhado bege na ilha de Fadiout. Sempre que Ousmane tenta
explicar para os brasileiros essa característica senegalesa, ele é interpretado
de modo errado. E escuta piadas fora de contexto.
Aqui
no Brasil não pensamos muito em casar, pelo menos não agora, talvez no futuro.
O que pouca gente conhece é que, para um senegalês poder oficializar o
matrimônio, os pais do noivo e da noiva precisam aprovar a união e dar o ok
final — para nós é importante o consenso da família. Em
Porto Alegre sabemos de alguns senegaleses que já estão casados com mulheres
brasileiras. Tendo adquirido até casa própria e carro e tudo mais. Isso é bom
para toda comunidade de imigrantes africanos, uma vez que ajuda a diminuir o
preconceito contra nós. A África sofre preconceito.
f.
O
Brasil é um país que manteve a escravidão de negros por mais de 300 anos. Nós
lemos sobre isso na internet. E a totalidade dos escravos que foram trazidos
para cá partiram da costa oeste africana. O Senegal fica na costa oeste
africana. Pensando agora a respeito do que aconteceu na vida dos nossos
antepassados, sentimos uma mistura de tristeza e desencanto. Mas não raiva. Nem
aversão de quem os escravizou — tanto
que escolhemos viver aqui no Brasil, no país que violou nossos ancestrais
africanos por mais de 300 anos. Não sentimos nem raiva nem aversão porque
sabemos que a conjuntura mundial era diferente.
Cerca
de vinte dias atrás, ali numa das laterais da rodoviária, um homem branco se postou
em nossa frente e, com rinchos e ulos, começou a fazer uma paródia grosseira do
dialeto senegalês que usamos entre nós. Foi uma provocação em tom de zombaria,
algo hostil e desrespeitoso, como se fôssemos seres monossilábicos recém-saídos
da savana. É um exemplo do preconceito que às vezes sofremos aqui em Porto
Alegre, preconceito de um grupo de pessoas que nos julgam analfabetos. Mas a
verdade é que não temos ressentimento, não nos incomodamos com o fato de nos classificarem
como homens sem letras. Se quiséssemos, poderíamos escrever sobre a escravidão
em francês, em árabe, em dialetos africanos e (alguns de nós) inclusive em
inglês.
g.
Faraji
está saindo com uma mulher porto-alegrense. Não chega a ser namoro, ele diz. Estão
se conhecendo aos poucos. A parte engraçada (engraçada para nós homens
senegaleses) é que, durante o primeiro encontro deles, essa mulher levou Faraji
de carro para um quarto que tinha cinco espelhos, banheira de hidromassagem e
um teto que abria com controle remoto. Sem falar na cama redonda de lençol
vermelho-sangue, que fez Faraji se descobrir um personagem de As mil
e uma noites.
Logo
que chegamos ao Brasil em 2015, a primeira coisa que estranhamos foi enxergar
casais de namorados se beijando em espaços públicos. Beijo de língua, sem
constrangimento. Em praças, shopping centers, no Parque da Redenção e na Usina
do Gasômetro. Essa troca de intimidade nos ambientes coletivos é impossível de
acontecer lá no Senegal — não que seja certo
ou errado, é apenas uma diferença cultural. Somos mais discretos, quem sabe por
causa da nossa herança servil.
Nós
quatro já lemos As mil e uma noites.
Não é uma história de origem africana. Ela vem de lendas árabes, indianas e
persas. No enredo, o rei Xariar é traído pela sua primeira esposa e, a partir
dessa traição, a trama do livro ganha desenvolvimento — recomendamos a leitura. O que nosso amigo Faraji
nos contou foi que, naquela noite com a mulher porto-alegrense, quando ele
estava à vontade na cama redonda de lençol vermelho-sangue, não parou de pensar
na traição da primeira esposa do rei de As
mil e uma noites. Não parou de pensar que a esposa do rei cometera adultério justamente com um
escravo. Um escravo.
h.
No
dia em que recebemos o convite da Ana Luiza para escrevermos estas linhas,
estávamos perto do viaduto da Borges. Era uma sexta de céu fechado, logo após a
hora do almoço. Ainda não tínhamos vendido nada à tarde. Foi quando ela apareceu
do lado direito (não a conhecíamos) e escolheu três pares de meias coloridas,
de lã, totalizando R$ 15. Havia educação e afetuosidade no jeito dela, como se
fosse alguém do serviço de proteção aos imigrantes. Malick fez a cobrança e
pediu se a cliente não tinha uma nota menor —
as notas de R$ 50 sempre complicaram nosso troco. Para surpresa de nós quatro,
a cliente se apresentou e disse que podíamos ficar com a quantia que havia
sobrado. Malick, em dúvida, virou-se para o resto de nós com olhos de impasse.
Mas demos consentimento, balançando positivamente nossas cabeças. Então Ana
Luiza nos explicou os detalhes do seu projeto. “Uma coletânea de contos sobre
os países que vão jogar a Copa do Mundo na Rússia, vocês querem escrever sobre
o Senegal?” É impossível dizer se ela fez o convite na intuição ou se já estava
com o plano pronto na cabeça. “Essa é uma iniciativa dos alunos do escritor
Assis Brasil”, Ana Luiza completou. Não fazíamos ideia de quem era Assis
Brasil, mas pelo sobrenome nacional só podia ser alguém importante para o país.
“Aceitamos”, dissemos no nosso português possível, sentindo no sangue uma fusão
de felicidade e desafio. Existem pessoas que sabem que somos alfabetizados.
i.
Malick, Ousmane, Faraji e eu
gostamos de dizer que o futebol ocupa um
lugar meio místico dentro de nós, dentro da nossa percepção de identidade. Mas
não tem nada a ver com a Copa do Mundo 2018 na Rússia — é algo mais primário do que isso, mais íntimo.
Ao longo da nossa infância/adolescência em Joal-Fadiout, o futebol foi
para nós uma espécie de capacitação de sentimentos, capacitação para tudo o que
encontraríamos em nossas futuras vidas de homens feitos.
Receio,
atrevimento, susto, improviso, desespero, paixão, covardia, ímpeto, risco,
derrota, fé, inevitabilidade. Tudo isso o futebol trabalhou devagar em nossa
índole, lance a lance, partida a partida. Lembramos com carinho de certas
passagens. Por exemplo, lá em Joal-Fadiout existe um cemitério misto que abriga
em harmonia tanto muçulmanos quanto cristãos, Cimetiere Mixte Musulman Chretien. De acordo com nosso julgamento inocente
de crianças-negras-de-pés-descalços, o cemitério era o lugar para onde iam os
muçulmanos e os cristãos que eram derrotados nas partidas de futebol.
Mas não tirávamos isso da nossa
criatividade. Havia mitos, folclore, deboche por parte dos mais velhos.
Ouvíamos essas ruminações como se estivéssemos diante de palestras sagradas —
era tudo o que tínhamos ao alcance do imaginário. Pescadores idosos nos reuniam
em semicírculo e divulgavam narrativas cheias de fatalidade e drama, de ameaça
e profecia. Que época. Olhávamos para as cruzes brancas do cemitério de Joal-Fadiout e aprendíamos cedo sobre as
duplicidades da existência senegalesa. Vida e morte. Sorte e azar. Mar e terra.
Cristãos e muçulmanos. Mirávamos os rostos afros dos pescadores idosos e, do
nosso jeito ainda ingênuo, interpretávamos os ciclos da Mãe África, os ciclos
de um povo que nunca teve muita manobra de escolha.
E, em nossos corpos magros de
meninos, a ideia chamativa do futebol como pano de fundo para as realidades e
irrealidades africanas. Muito varal em nosso entorno. Muita concha de molusco.
Muito cheiro de pescado. Acácias, manguezais, baobás. As nuvens carregadas em
julho e agosto, as variações sazonais. Pelicanos, hienas, gaivotas. Os ventos do norte e do oeste. Inventávamos
campeonatos e ligas regionais, times e divisões. Muito céu em cima. Muito mar
ao lado. Muita piroga ancorada esperando pela nova travessia. Cerâmica,
turbantes, vestidos estampados. O mercado de peixe e a zona de secagem na parte
oriental. Jogávamos nosso futebol cercados pela vida conhecida de Joal-Fadiout,
sem desejarmos os ares de outras terras, os portos de homens brancos.
As partidas às vezes contavam
com times cheios, um excesso ruidoso de crianças. Mas em outros momentos éramos
obrigados a improvisar jogos de dois contra dois, um contra um. E nessas horas
fazíamos uso de nossa fabulação, enxergando torcedores onde só existiam varais
com mangas ao vento, enxergando rede de gol onde só havia rede de pesca,
enxergando árbitros e técnicos e preparadores físicos onde só havia pescadores hipnotizados
pela sua própria subsistência.
Três
anos vivendo no Brasil e já não podemos dizer que continuamos os mesmos —
quem pode? As circunstâncias brasileiras modificaram nós quatro, sem que no
início percebêssemos. Mas ainda que tenhamos incorporado certos hábitos aqui de
Porto Alegre, o sentimento em nós é de que nossa africanidade se tornou mais
forte, mais autoconsciente. É difícil explicar direito essa impressão. Às vezes
observamos o mapa-múndi e é como se o continente africano nos saltasse aos
olhos feito um leão insaciável. Nessas ocasiões, o território costeiro do
Senegal também adquire uma dimensão bem maior. De área e de significados.
Talvez soe bobo de nossa parte: o futebol que hoje em dia jogamos ali na margem do Rio Guaíba torna mais viva a noção que temos de nós mesmos. Nos domingos à tarde em que não está chovendo, saímos da zona norte e vamos até a Avenida Beira-Rio, ansiosos por espaço nas partidas improvisadas que acontecem num campo colado ao rio — campinho de terra, sem linha de marcação nas laterais. Noventa por cento de quem joga ali são brasileiros, claro, e além de nós senegaleses também participam alguns haitianos e até um cidadão sírio. Quase uma Copa do Mundo à parte.
Talvez
soe mais bobo ainda: sempre que entramos em campo aqui em Porto Alegre, nós
quatro nos cumprimentamos do mesmo jeito que fazíamos antes das partidas de
infância em Joal-Fadiout. É uma ritualização antiga que agora (tão longe que
estamos da África) imprime em nós um valor diferente, que tem a ver com quem somos,
com quem imaginamos ser. A bola dominada em nossos negros pés senegaleses.
Muito varal em nosso entorno. Muita concha de molusco. Muito cheiro de pescado.
Acácias, manguezais, baobás. E no fim das tardes de domingo, quando a partida ali
na margem do Rio Guaíba está terminando, nós gostamos de ver surgir no
horizonte aquele risco violeta, meio roxo, que os porto-alegrenses dizem ser o
pôr do sol mais bonito do mundo. Cerâmica, turbantes, vestidos estampados. As
variações sazonais. O mercado de peixe e a zona de secagem na parte oriental.
Muito céu em cima. Muita água ao lado. Muita piroga ancorada esperando pela
nova travessia. Todo conjunto de nossas realidades e irrealidades africanas.
https://www.youtube.com/watch?v=vFU2JzAX4GI
domingo, 24 de novembro de 2019
*matéria 8
“[...]
trilhas de intermináveis bifurcações que uma pessoa precisa
enfrentar
quando caminha pela vida.” (AUSTER, 2017, p. 809)
É minha mãe na imagem. 22 anos.
Nenhum filho ou filha ainda, nenhum marido. Sua fisionomia moça e seu olhar sereno
me sensibilizam de um jeito imprevisto. Enquanto estudo sua foto 3x4, me flagro
a percebê-la não só como mãe, não só como alfabetizadora das minhas compreensões.
Percebo-a hoje também como amiga de travessia-vida, amiga de futuro-dúvida. E nossas
dúvidas, porque as temos bem demarcadas em 2019, nossas dúvidas fazem com que nos
reconheçamos aliados para a nova realidade doméstica que se impôs a ela nos
últimos tempos.
metatextualidade
As limitações textuais. Releio
o parágrafo anterior e noto que seria impossível escrevê-lo com isenção, impessoalizando-o.
Diferente do que fiz no arranjo das sete matérias anteriores, mexo agora na voz
narrativa, substituo de repente a terceira pessoa pela primeira. E já não sei
se posso chamar este texto de matéria. Não sei se, em virtude da dicção colada
à pessoalidade, me expresso com o distanciamento e a clareza que se exigem de um
material jornalístico. Me pego neste momento hesitando tanto na forma quanto no
conteúdo. Hesito em falar sobre minha mãe.
destinos,
chances
Embaixo do título que dei para esta suposta matéria,
como frase de apoio, há um fragmento do romance 4321, de Paul Auster — obra finalista
do Man Booker Prize 2017. O livro trata das bifurcações (norte-americanas ou
brasileiras) que existem nas trajetórias pessoais de todos nós. Paul Auster oferece
quatro destinos possíveis ao mesmo personagem, Archie Ferguson. “Imaginar como
as coisas podiam ser diferentes.” (p.55)
Eu olho
para a fotografia da minha futura mãe, aos 22 anos dela, e sem querer visualizo
destinos alternativos para seu caminho, para sua biografia. Se ela fosse a
personagem central do livro 4321,
quais opções de caminhada lhe seriam oferecidas? Outra cidade? Outros filhos? Se
em Veranópolis a ficção tivesse tomado as rédeas do real e colocado minha mãe à
mercê da literatura de Paul Auster, será que ele a teria conduzido para longe
de mim e da minha irmã, para longe da nossa chance de nascer?
maio de 68
Na fotografia da minha mãe, além da atmosfera
calma e meio hippie, o que chama minha atenção é a data estampada
na parte inferior, o maio de 68 —
simplesmente o mês mais importante do século XX. O mês decisivo. Se os
desdobramentos que começaram durante aqueles trinta dias não tivessem
acontecido, a consciência cidadã como a conhecemos hoje estaria mais
despreparada, inexistiria em nós uma fagulha contestatória pronta para
flamejar.
Em maio de 68, a calmaria de Veranópolis
não tinha nada a ver com a impetuosidade que se via em Paris. Minha mãe não
participou, na Champs-Élysées, das passeatas estudantis que exigiram o fim das
posturas conservadoras, o fim do arcaísmo, o fim das negligências sociais e
humanas. Ela não esteve lá. Mas, me valendo aqui da lógica literária de Paul
Auster, eu observo a imagem jovem da minha mãe e a posiciono com os braços
erguidos no maio de 68 parisiense. Vejo pelas ruas seus cabelos soltos, seus
olhos insubmissos. Vejo bifurcações.
autoimagem,
edição
No instante em que eu comento algo sobre sua foto
3x4, me surpreendo que minha mãe rebata que na sua juventude ninguém jamais lhe
disse que ela era bonita, nem mesmo meu pai — condicionado às
regionalidades mais ou menos formais do interior gaúcho nas décadas de 60 e 70.
As pessoas não verbalizavam os encantos alheios. “Eu achava que era feia”, ela me
diz agora e fica à espera de uma restituição, de um ressarcimento elogioso
sobre a beleza dos seus 22 anos. Então eu lhe ofereço as palavras atrasadas e,
desse modo, que interessante, acabo editando a autopercepção da minha mãe, acabo
editando o modo como ela interpreta sua autoimagem. Uma bifurcação retroativa.
AUSTER, Paul. 4321.
São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
domingo, 27 de outubro de 2019
*matéria 7
O
sonho contemporâneo (e às vezes perigoso) de empreender
No cinema norte-americano, quem
sorri o dia inteiro é o personagem Coringa. Na realidade brasileira, é o
vendedor informal. “O importante é sorrir”, diz Jovane Cassafuz, 24, “senão o
cliente não estabelece contato.” De segunda a sábado, nove horas por dia, ele
vende paçocas em Caxias do Sul — e exibe
o cartaz que sintetiza a sua filosofia trabalhista. Jovane faz isso principalmente
nas paradas de ônibus, local tático, já que os clientes potenciais não podem
apressar o passo nem fingir que não estão enxergando as paçocas que ele oferece:
3 por R$ 2.
interesse, necessidade
Jovane é são-borjense e, devido
à geografia fronteiriça de lá, nunca se esqueceu de prestar atenção na
Argentina, “minha bisavó era castelhana”. Em São Borja, ele aprendeu a mexer
com música eletrônica, interesse lúdico que pegou dos primos. Chegou inclusive
a, como se diz, pilotar a mesa de certas festas, selecionando batidas dançantes
que faziam os braços da pista se hastearem.
Jovane aperfeiçoou esse lado
musical na PUC de Porto Alegre. Durante o curto período em que viveu na
capital, conseguiu lutar por espaço num curso de música clássica. “Quem quer ser
produtor musical precisa estudar, e a música clássica é o berço de tudo.” Porém
hoje a musicalidade de Jovane anda meio recolhida, muda, pois quem paga as
contas em casa é a venda de paçocas.
empreender, apreender
Para
empreender — Jovane está ciente —, é preciso antes apreender, assimilar as
técnicas e os truques da administração. Ele chegou a entrar num curso superior,
mas precisou abrir mão da atmosfera universitária por razões financeiras. O que
Jovane conseguiu fazer até a última lição foi um curso no SEBRAE, travessia que
lhe ensinou algumas compreensões básicas sobre o comércio.
religião,
monarquia
Jovane conta que, por dois ou três meses,
frequentou de modo assíduo a igreja de São Pelegrino, “fiz parte do apostolado
da oração”. Nos encontros, o empreendedorismo dele cedia lugar ao sagrado
coração de Jesus, cujos batimentos não abrangiam o comércio e o lucro — ocasiões então para que Jovane fortalecesse também sua humildade, sua
parcela filantrópica.
Em relação à política atual, numa mistura de
brincadeira e seriedade, Jovane conta que admira o sistema da monarquia. “É
mais original.” Sorrindo, cita a rainha Elisabeth e diz que as coisas são mais
fáceis quando apenas uma pessoa toma as decisões. Sorrindo uma oitava acima,
ele revela que não gosta muito de acompanhar o desenrolar político nacional, não
tem essa fé, “em 24 anos, nunca votei”.
tempos modernos
Como se sabe, em 1936, os Tempos Modernos de Chaplin já antecipavam o perigo da alienação
dentro do trabalho, o perigo de apertarmos um parafuso sem que entendamos ao
certo o motivo para isso. Chaplin, desprovido de microfones e megafones, fez
uma crítica social e política — insuficiente para que o
mundo conseguisse escapar da armadilha.
Nos tempos modernos
atuais, as armadilhas se diversificaram. E elas gostam de usar disfarces cativantes.
Jovane está consciente das ameaças da informalidade, da precarização das
condições trabalhistas, “eu sei que aqui fora eu não tenho garantia de muita
coisa.” Empreender (o verbo da vez, o verbo tão usado em palestras TED) está
longe de possuir uma definição absoluta. Resolver-se
a praticar; tentar, afirma o dicionário Michaelis. Só que o Michaelis lava
as mãos e não menciona os perigos ao redor dessas palavras.


